Este livro faz parte da série Caio Zip, O Viajante do Tempo, e foi escrito por Regina Gonçalves

Crimes + mistérios + Teoria da Relatividade + Cubismo e muito mais.

Capítulo 1

O vento incessante balançava a placa pendurada acima de um poste. Seu uivo coberto de lamentos atravessava as ruas vazias e escuras sem intuir que era seguido pelos passos solitários de um jovem. Nesse cenário sombrio, só restava ao viajante do tempo encolher as mãos nos bolsos do bermudão… Não sem antes enfiar com toda força o boné para esquentar as geladas orelhas. Sem saber para onde ir… Naquele lugar estranho, Caio Zip ficou a vagar por sobre os trilhos da linha de ferro que, por fim, o levou a uma estação mais à frente. O percurso até lá era curto, mas o frio da madrugada e a pesada fome desanimavam o rapaz.

Tempo depois, chegando na estação iluminada por uma tênue luz elétrica, o vazio se fez sentir. A estação lotada por um silêncio angustiante deixava-o sem ação. De súbito, o melancólico momento foi quebrado com a passagem de uma carruagem puxada por dois cavalos agitados que trotavam por sobre os quebrados paralelepípedos. Caio suspirou aliviado e até pensou em assoviar a fim de chamar a atenção do cocheiro, mas sua indecisão fez com que perdesse a chance. Aborrecido, voltou a vagar por aquela enorme estação. Caminhou por entre os bancos de ferro até encontrar um lampião aceso, provavelmente deixado por um sinaleiro. Pegou o precioso achado e ficou a procurar indícios de onde se encontrava.

Logo mais à frente, abaixo de um grande relógio de madeira esculpida, encontrou um quadro negro onde constavam alguns itinerários para cidades francesas. Lá também constava o nome Gare Du Nord — estação do Norte — e a data de saída dos próximos embarques e desembarques… Contudo o que mais chamou a atenção do jovem foi saber que era o ano de 1905. Suas descobertas estavam deixando-o empolgado até que um ruído o atraiu.

Caio foi seguindo e seguindo o som estranho chegando a atravessar o outro lado da linha. Lá, um trem de carga se encontrava parado. Logo o garoto notou que os ruídos abafados vinham de um dos vagões vazios. Guiado pela curiosidade, aproximou-se devagar e sem cerimônia enfiou sua cabeça no interior do vagão juntamente com sua mão erguida sustentando o lampião… O tempo congelou diante daquele momento. Os olhos surpresos de Caio se fixaram no rosto contorcido de um homem completamente pálido e com a língua assustadoramente caída. Devagar, a boina velha e surrada daquela figura quase sem vida foi escorregando revelando o cabelo curto e grisalho. Os olhos com um mórbido fundo preto do quase morto voltaram-se para Caio. Pareciam estar implorando por uma última salvação… Mas aos poucos aquele olhar foi perdendo o brilho do desespero deixando no lugar um profundo vazio. O corpo sem forças daquele homem ainda permanecia de pé, enquanto os braços, que todo esse tempo permaneciam em volta do pescoço, começavam a escorregar por sobre o casaco rasgado, expondo a presença de um fio estrangulando o pobre homem… Uma sensação forte de enjoo quase derrubou o jovem. O lampião chegou a balançar e foi aí que a luz trepidante denunciou outra figura atrás do corpo, segurando o fio que sustentava o moribundo. Era um homem alto e moreno, trajando um terno preto, que ao encarar o jovem intruso… As mãos assassinas largaram sua vítima e se mantiveram arqueadas preparadas para abater a nova presa a sua frente. O lábio superior do criminoso exibia os caninos esboçando um sorriso de pura crueldade que o fez ser atingido por uma intensa descarga de pavor. Caio respirou fundo, mas o ar ficou travado na garganta seca. Seus olhos apavorados não conseguiam desviar do predador. Suas pernas trêmulas custaram-lhe a obedecer a seu instinto de sobrevivência. Aqueles míseros segundos pareciam sem fim para ele que já implorava uma forma de escapar dali. O homem de olhar selvagem deu um passo em direção ao apavorado. Esse foi o momento para que algo vindo de dentro do garoto desse forças para reagir e num só lance atirou o lampião contra o maldito e fugiu em disparada.

Caio corria como um alucinado pelas ruas estreitas e escorregadias. O medo e as imagens do crime o perseguiam. As janelas escurecidas dos prédios o deixaram atormentado. Todas elas guardando aquela gente adormecida que nem em sonhos poderiam imaginar o drama que ele estava passando… Não ousava gritar. Tinha medo que o seu perseguidor o ouvisse e aí sim poderia ser o seu fim. Correr e correr pra bem longe… Era tudo que queria. Porém os lampiões espalhados na rua o aterrorizavam com seus jogos de luzes e sombras. Sua imaginação fazia-o acreditar que cada sombra distorcida pudesse ser a do assassino à espreita.

As vitrines das lojas pareciam não só estar refletindo o seu rosto encharcado de suor, mas também seus pensamentos. A cada relance, os olhos de Caio se concentravam nos reflexos que faziam imagens emergir sobrepostas, tomando a forma de um quadro. Colagens como o rosto distorcido do estrangulado de perfil e de frente ao mesmo tempo com os olhos saltando e os dentes serrilhados… Bem no centro desse quadro que sua mente criava, podia distinguir a figura do assassino de lábios exageradamente grossos com um sorriso canibal. Os globos oculares do criminoso saltavam para fora da cavidade e sua face estava tremendamente repuxada. As mãos em forma de garras seguravam um longo fio da morte. No fundo dessa cena do crime estava o trem retratado tal como um desenho de uma criança. Acima, no canto esquerdo, estava o esboço feito por linhas trêmulas de sua mãe com a face deformada por lágrimas e por fim, no canto inferior, estava o pedaço da tela mais escabroso… Lá, uma cova era perfurada por uma lápide com o nome Caio Zip em sangue borrado. Todo esse drama rabiscado por sua imaginação aterrorizada o deixava mais confuso. A cada encruzilhada não sabia para onde seguir… Como saber se estava na direção certa? Como saber o que aconteceria se seguisse por ali ou por aqui… Se seria melhor ou pior? Durante sua fuga desembestada, Caio acabou esbarrando em alguém.

— Ei! — reclamou o homem fardado — o que há com você, rapaz?

— Seu guarda, tem um homem atrás de mim. Eu vi um homem morto.

— Calma aí, mocinho, fale devagar. Do que você está falando?

— Tem um homem querendo me matar. Ele matou um mendigo no vagão do trem lá na estação.

— Que história é essa? — disse o policial, segurando os ombros do alarmado.

— Eu vi, eu vi! Tem um homem morto dentro do vagão.

— Mas como pode ser? A estação está fechada a essa hora. O que você estava fazendo lá? Ei, rapaz, cadê seus pais? Onde você mora? — o policial preocupado segurou o braço de Caio. — Diga logo!

— Me larga! Seu guarda, eu estou falando a verdade. Vamos lá na estação que eu mostro o corpo do mendigo.

— Mendigo, é? Deixa disso, rapaz. Diga onde você mora, senão eu vou é levá-lo pra delegacia, já, já.

— Não! – Caio se soltou e fugiu do guarda.

— Volte, garoto, volte já aqui! — gritou o guarda parado. — É pro seu próprio bem.

Caio continuou a correr por aquelas ruas desconhecidas até que, esgotado, escondeu-se num beco escuro sem saída. Seu rosto estava vermelho e custava a respirar. Detrás de uns latões se acomodou do jeito que pôde. Apesar de tentar manter-se vigilante, seu corpo acabou obrigando-o a dormir, fugindo assim, nem que fosse por um breve momento, daquele pesadelo.

Aos primeiros chutes, Caio despertou.

— Acorde, moleque! — gritava um policial, enquanto continuava a dar chutes leves nas pernas do dorminhoco.

– O quê! – Caio esfregava os olhos. — Ah não, outro guarda.

— Anda logo. Não tenho o dia todo. Sai logo daqui ou senão coloco nas grades.

— Droga, tô morrendo de fome.

— Ora, moleque, se é assim, então vá pro albergue que é seu lugar. Anda!

— Albergue? Onde?

— É só dobrar a esquina. Sai logo daqui, antes que eu perca a paciência. — Caio se levantou e se dirigiu à esquina.  Naquela hora da manhã, já havia pessoas andando pelas calçadas assim como carruagens e carroças. Logo ele percebeu que todos que passavam por ele o estranhavam, principalmente as mulheres usando chapéus de abas largas e trajando vestidos longos com golas abotoadas com broches. Definitivamente, seus trajes diferentes e sujos chamavam a atenção. Todo encurvado, fechando ao máximo a camisa contra o peito, tratou de acelerar o passo.

Assim que atravessou a rua foi direto para um prédio onde havia uma fila de pedintes. Ao entrar, andou até um balcão e pegou um dos casacos ali amontoados. Apesar do agasalho ser de um tamanho maior que o seu manequim, vestiu-o. Apressado, cruzou um corredor e foi seguindo o cheiro de uma sopa que a essa altura lhe pareceu um verdadeiro manjar dos deuses. Sentou-se um pouco afastado dos velhos reunidos na ponta da mesa longa e foi fazendo sumir de uma só vez a comida. No último gole, olhou para frente e se assustou. Lá na porta de entrada, avistou o policial que havia esbarrado durante a correria da madrugada. Com medo, escondeu o rosto por detrás da gola do casaco até verificar que o guarda saíra dali. Mais aliviado, voltou a procurar por mais um prato de sopa.

— Está mesmo com fome, filho — preocupou-se uma senhora de cabelos grisalhos presos, segurando uma cesta de pães. – Aceita um pedaço? Está fresquinho.

— Quero, sim, obrigado! — respondeu Caio com um sorriso.

— Nunca vi você por aqui — disse a mulher, ajeitando os pequenos óculos que teimavam em escorregar para a ponta do nariz. – Como se chama?

— Meu nome é Caio Zip. E a senhora?

— Sou madame Dupin. Sou eu que ajudo a cuidar desse abrigo junto com o pastor Samuel… E você está sozinho? Você tem pais?

— Bom —   Caio, desviou o olhar por um instante. —, eu, eu… Estou por uns tempos viajando sozinho. Os meus pais não estão vivos.

— Pobre menino – disse a senhora, passando os dedos no rosto sujo de Caio. – Onde você está morando?

— Eu acabei de chegar aqui de madrugada e ainda não arranjei um lugar pra ficar.

— De madrugada! – espantou-se a senhora. – E o que ficou fazendo até o amanhecer?

— Eu estava na estação e… – por mais que tentasse, a indecisão de Caio o impedia de contar à idosa atenciosa.

— Vamos, filho, o que foi que aconteceu? Pode falar.

— Eu vi um homem sendo estrangulado. Foi isso que aconteceu.

— Verdade! E você viu a cara de quem o matou?

— Direito, não – a velha ficou por instantes a encarar o garoto.

— Oh, bom Deus, como é que essas coisas acontecem — a senhora se sentou ao lado de Caio. — Então é mesmo você quem o policial procura.

— Policial?

— Vou ser franca com você, meu filho, esteve agora há pouco um oficial procurando por um garoto que contou para ele sobre um assassinato. Como ele achou que o garoto não batia bem da cabeça, pediu-me para que assim que eu o visse o avisasse. — a velha sorriu e colocou a mão nas costa do assustado — Mas sabe de uma coisa? Eu acho que se você viu realmente  um crime, dever ir até a delegacia e dizer tudo que sabe.

— Não, não vai dar — disse Caio, agitado.

— Por que, meu filho?

— Não, não posso.

— Mas por quê? – insistia madame Dupin. — Se você está com medo eu posso ir com você.

— Não, deixa pra lá. Eu estou sozinho e se bobear a polícia vai me prender.

— Tem certeza?

— Tenho, tenho sim.

— Acho que você está certo. Depois que você contasse tudo, a polícia, vendo que você está só, iria mandar você pro orfanato… E eu acho que você não ia gostar muito de lá.

— Orfanato! — ficou Caio ofegante.— Não, de jeito nenhum.

— Bem, Caio, já que você não quer… Você tem lugar pra ficar?

— Não, eu já disse que eu não tenho.

— Ah é, você já disse isso. Que cabeça a minha. Bem, na rua é que você não pode ficar. Venha comigo, filho, vou te levar para a pensão onde moro.

— Pensão! – animou-se Caio, mas em seguida ficou preocupado. — Mas eu não tenho dinheiro.

— Não se preocupe. Você pode pagar trabalhando. Vamos? Sua cara está me dizendo que precisa de um bom descanso e de um bom banho.

No caminho, Caio e madame Dupin, que andava curvada, estavam passando por um beco abandonado quando a senhora parou por uns instantes enquanto Caio prosseguia. Quando o garoto se voltava para a senhora um homem gritou.

— Madame Dupin!

A mulher, ajeitando a cintura da saia, rapidamente, virou-se para um homem alto loiro que sorria para ela.

— Bom dia, senhor Duarte. Como vai?

— Vou bem, madame.

— Um lindo dia, não.

— Sim, madame, mas o que a senhora está fazendo aqui nesse beco?

— Como o que estou fazendo? Estou levando meu amiguinho para a nossa pensão.

— Ah, mas uma cara nova. Prazer! — disse o homem, tirando o chapéu. — Sou Jean Duarte.

— Sou Caio Zip — cumprimentou o garoto, levantando a mão.

— Madame, a senhora não deveria passar por aqui. É muito perigoso.

— Que nada! — respondeu a mulher, impaciente. — De dia não tem problema algum e o senhor sabe que por aqui a gente corta um bom pedaço do caminho…

— Não é nada sensato uma senhora arriscar-se. Se a senhora me permitir, irei com vocês.

— Mas o senhor não está vindo de lá?

— Sim, mas não tem problema. Eu só ia bater um pouco as pernas, procurando um tema para fotografar depois. Vamos?

— Já que o senhor insiste — disse a senhora, olhando para Caio.

— Insisto, senhora. Eu faço questão de deixá-los na porta.

 

 

 

Tim, Tim, Tim — tocava a senhora Dupin a pequena campainha do balcão da pensão.

— Já vai! Já vai! — resmungou uma senhora de cabelos brancos de olhos escuros e com intensas rugas na testa. A mulher, andando com a ajuda de uma bengala e segurando um enorme xale nas costas, foi descendo as escadas atrás do balcão. – Que coisa, madame Dupin! Tenha paciência. Eu não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sabia?

— Madame Blanche – chamou a velha Dupin. – É sobre isso mesmo que vim falar com a senhora. Trouxe esse rapaz aqui para ajudá-la nos serviços.

— Ah, não — assustou-se a mulher apertando mais o xale contra o peito. — Não me diga que é um dos seus mendigos.

— Não, madame, esse rapaz não é um dos carentes do albergue.

— Ah, é! – desconfiou a senhora, olhando de cima a baixo o garoto escondido no enorme casaco. — Então, de onde veio esse mocinho, hein? Não quero gente estranha em minha casa.

— Madame — interrompeu o homem que acompanhava madame Dupin. —, qual é o problema dele ficar aqui? A senhora mesmo admitiu há pouco que precisa de alguém! Esse rapaz é forte e saudável. Ele pode muito bem ajudar fazendo os serviços como lavar janelas, mandar recados, ir às compras para a senhora… Tudo isso em troca de comida e de um quarto.

— Um quarto, não. Eu só tenho o depósito lá no sótão. E ele vai ter que fazer também a faxina dos quartos.

—Já está ótimo — sorriu madame Dupin. — Ele aceita, não é?

— É – confirmou Caio chateado. — Tá bom.

Uma senhora alta, de cabelos acobreados, surgiu por detrás da idosa inquilina.

— Quem é ele? — indagou a estranha de voz forte, olhando fixamente para Caio.

— Ninguém, Madame Elpram — limitou-se madame Blanche, subindo as escadas. — Apenas mais uma boca pra comer.

— Marine, que bom que está aqui — disse madame Dupin à senhora alta. – Será que você poderia me fazer um favor?

— Sim, o que deseja?

— Eu preciso voltar logo para o albergue. Poderia cuidar de Caio enquanto isso?

— Não tem problema — a mulher colocou a mão pesada sobre o ombro de Caio. — Por mim está tudo bem. É sempre bom ver uma cara nova por aqui.

— Obrigada, Marine — disse Dupin já se dirigindo à porta da rua. – Volto assim que puder. Cuide bem dele. – a senhora virou-se para Caio. – Fique aqui, meu filho, e não saia. Está bem?

— Venha – pediu Marine a Caio. – Vou lhe mostrar o lugar, depois — a senhora parou um instante e ficou a reparar em Caio. — Vamos arranjar umas roupas pra você e — ela começou a farejar algo no ar. — Que tal um banho?

 

 

 

Foi somente após um banho de banheira com água bem fria e mais quatro horas, enfrentando a detalhada excursão da senhora Marine Elpram, que Caio finalmente conseguiu ficar sozinho. Aproveitou que havia uma sala vazia e foi descansar num sofá. Ficou ali pensativo, tentando refletir sobre tudo que lhe havia acontecido, até o momento em que seus olhos depararam-se com um jornal jogado ma mesinha em sua frente. Caio o pegou e começou a folhear as páginas, avidamente, até se fixar em uma.

— Hum! Lendo a parte policial — disse uma garota ruiva, um pouco mais velha que Caio, parada atrás do sofá. A desconhecida, trajando uma saia e paletó cinzas com um broche em forma de flor preso à gola alta de uma blusa branca, tentou ler um artigo.

— O quê! – Caio disse, surpreso, fechando a página.

— Ei, calma — disse a garota, erguendo as duas mãos. — Eu não queria assustá-lo. Só estava curiosa. Do jeito que estava lendo, eu sou capaz de apostar que você estava procurando alguma coisa muito especial.

— Eu só estava lendo — disse Caio, largando o jornal. – Eu só estava passando o tempo.

— Que pena – desapontou-se a jovem. – Pensei que tinha encontrado, finalmente, alguém pra conversar nesse lugar chato. Também pudera, as pessoas daqui não são muito de ler e nem de conversar… Você gosta de livros policiais? Por acaso, você já leu as aventuras de Sherlock Holmes?

— Sherlock! – alegrou-se Caio. – Eu o conheço bem.

— Você gosta? Que maravilha!

— Eu acho ele muito legal.

— Legal – estranhou a jovem. — É, não deixa de ser, já que ele é um detetive, ele tem agir conforme a lei. Mas, deixando isso de lado,então, eu não me enganei. Você gosta de ler o jornal procurando crimes não resolvidos assim como eu, não é isso?

— Não é bem isso. Na verdade, eu estava vendo se havia alguma coisa sobre um homem morto na estação.

— Na estação! – a ruiva interessada logo se acomodou no sofá junto a Caio. — Quando aconteceu?

— Hoje de madrugada.

– E você já queria encontrar a notícia no jornal? Ah, que é isso. Se aconteceu de madrugada, o jornal só vai noticiar amanhã lá pelas onze.

— Pelas onze!

— Claro. O jornal custa muito a chegar aqui em Montmartre.

— Droga!

— Mas… Como foi esse crime que você viu afinal?

— Quem disse que eu vi o crime?

— Só pode ser. Eu não vi a senhora Elpram comentar nada sobre um crime e pode acreditar, se ela não contou então ninguém está sabendo de nada. Ela é a maior “noticiadora” da região. Além do mais, do jeito que você estava folheando esse jornal… Aí tem coisa. Você tem algum envolvimento pessoal com o caso. E aí, o que você viu?

— Eu vi um homem sendo estrangulado.

— Estrangulado! – Mary ficou pensativa depois continuou. – Onde foi?

— Foi lá na estação.

— Sei, sei, mas qual estação?

— Acho que era… Ah, sim estação do Norte.

— Hum, essa é uma das maiores estações daqui de Paris. E o que você viu de verdade?

— Eu vi um mendigo sendo estrangulado por um homem.

— Você viu a cara do criminoso?

— Vi e não vi. Havia pouca luz, sabe. Ele era alto, moreno… Vestia um terno preto… Foi tudo muito rápido. E eu… Eu não esperava… Me lembro bem do olhar… Era muito… Muito frio, mas ao mesmo tempo parecia tão assustador.

— Bem, não é de se estranhar. Certamente, o homem não esperava ser visto por alguém.  — a garota riu, mas em seguida ficou intrigada. – Aliás, o que você estava fazendo na estação a essa hora?

— Eu? Eu estava andando perto dos trilhos até que vi a estação. Eu acabei de chegar aqui na cidade.

— Sozinho?

— É! Não tem nada demais — tentou Caio desconversar. A curiosa, vendo que Caio tinha ficado sem jeito, mudou de assunto.

— E o que mais? Como era o assassino? Ele era grandalhão? Tinha alguma cicatriz…

— Não, não, ele era bem normal… Quero dizer… — corrigiu Caio ao ver a jovem segurando o riso. — Que eu me lembre, ele não tinha nada que me chamasse a atenção.

— A não ser que era um homem com as mãos ocupadas estrangulando alguém. — Caio, sem graça, manteve-se quieto. A ruiva aproveitou para prosseguir com o interrogatório. – E o que mais aconteceu?

— Ah, eu fiquei ali parado, mas depois que vi o homem avançar, querendo me pegar, joguei o lampião na cara dele e me mandei.

— E tem certeza que o mendigo morreu?

— Ele morreu, sim, e na minha frente. O homem de preto estava estrangulando com um fio até que a língua do mendigo ficou toda de fora e o rosto estava branco… A boca dele estava roxa que nem… Que nem aquele pano ali – disse o aflito, apontando para uma toalha de mesa bordada em cima de uma mesinha alta com uma bíblia aberta num apoiador de madeira. – O olhar… O olhar dele me implorava por ajuda e eu não pude fazer nada. Nunca pensei que pudesse me sentir tão inútil. Mas o que eu podia fazer? Droga!

— E você já falou com a polícia?

— Não, não…

— Como não? – repreendeu a jovem. – Você é uma testemunha ocular e…

— Ora, por quê? – chateou-se o garoto se levantando do sofá. — Eu… Eu vivo sozinho… Acabei de chegar e… Não conheço ninguém. E a polícia vai me levar pra um orfanato. Eu não vou me envolver com a polícia.

— Sim, sim, compreendo. – a ruiva ficou pensativa por um instante e depois prosseguiu. – Bom, vamos esperar. Se tudo isso aconteceu de madrugada na estação deve sair alguma coisa nos jornais amanhã.

— Mas aconteceu. É tudo verdade!

— Eu não duvido de você. Do jeito que você estava olhando o jornal… Do jeito que você contou como se estivesse vendo tudo novamente… Dá pra sentir que você não inventou e nem exagerou… Você não parece do tipo que conta coisas só pra impressionar uma garota — brincou a garota. — Pode deixar! Amanhã deve sair alguma notícia, nem que seja uma notinha. — ela deu um sorriso com o olhar que deixou Caio se sentindo mais confiante. Os dois já estavam voltando a conversar, quando a senhora Blanche apareceu diante deles.

— Ah, aí está você, mocinho — disse a senhora de forma áspera, fazendo com que Caio saltasse do sofá. – Trouxe aqui uma lista das coisas que eu quero que você faça aqui na pensão. Espero que não seja do tipo molenga. Já vou logo avisando que comigo não dou nada certo gente assim.

Caio pegou a lista e ficou abismado com a quantidade de tarefas.

— Vamos, moço, já deixei você muito tempo descansando — disse a dona, empurrando o jovem com a bengala. — Ao trabalho.

— Ei, espera – pediu a ruiva ao rapaz. – Você não me disse seu nome.

— É Caio Zip – respondeu Caio já fora da sala. – E o seu?

— É Mary — apressou-se a garota. — Mary Miller.

 

— Mocinho — disse a senhoria na frente de um balcão. — Fique aqui e me espere que volto já. — a mulher subiu as escadas.

Enquanto esperava, Caio ficou próximo à janela, observando o movimento da rua. Num dado momento, surgiu um homem de cabelos castanhos curtos e despenteados com um bigode, trajando um terno e colete quadriculado. O homem, carregando uma mala, entrou na pensão, dando um aceno a uma senhorita que saía do recinto. Caio ficou a reparar nos pés daquela figura ímpar de cabelos desgrenhados que calçava sapatos de couro sem meias e tinha a calça do terno amassada. Mais peculiar era seu comportamento, pois olhava para tudo ao seu redor e mexia nos objetos com uma espontânea curiosidade infantil. A impressão que tinha era de estar diante de alguém visitando o local pela primeira vez. Não. Era mais do que isso. A sensação era de que o homem não só não fazia parte daquele lugar, mas sim como se estivesse vagando fora do seu mundo, fora do seu tempo.

— Essa mala é sua, senhor? — indagou madame Elpram, descendo as escadas.

— Sim, sim — confirmou o desconhecido, retornando para perto da mala. — Eu gostaria de alugar um quarto.

— Pois não — Marine ficou a olhar para a mala gasta com uma pequena corda amarrada na alça. – E quanto tempo o senhor pretende ficar?

— Acho que uma semana é o meu limite.

— São 15 francos com café e almoço, adiantados.

— Isso basta? — o estranho foi tirando do bolso algumas notas embrulhadas e foi espalhando-as por cima do balcão.

— Marcos alemães!

— Eu ainda não tive tempo de trocar o dinheiro.

— Engraçado – prosseguiu a abelhuda marine. – o senhor não parece alemão.

— Eu sou alemão, ou melhor, sou suíço.

— Como? – ficou a ajudante intrigada.

— É melhor explicar: Nasci em Ulm na Alemanha, mas naturalizei-me suíço.

— Então, faz pouco tempo que se naturalizou, não é?

— Pouco tempo, muito tempo. O tempo é relativo.

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